Pagar ou não pagar para publicar

Autor: Rafael Repiso – tradução: Mirelle da Silva Freitas

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O que é isso de pagar para publicar artigos? A intenção deste texto é introduzir o tema para que o leitor tenha uma visão profunda e contextualizada do assunto e assim tire suas próprias conclusões. As revistas científicas são em sua maioria produtos deficitários, economicamente falando, apoiadas por instituições que entendem que as revistas ofertam valores intangíveis importantes. Somente as melhores revistas do mundo têm suas contas sólidas e oferecem inclusive benefícios. Tradicionalmente, a principal fonte de renda direta são as assinaturas e o pagamento pelos acesso aos artigos na Internet, apoiando-se em financiamento de fundos de custo irrecuperáveis de suas respectivas editoras.

Portanto, eram e são as assinaturas pessoais e corporativas a principal fonte de financiamento das revistas. De fato, em sua origem, a maior parte das assinaturas eram pessoais, até que se inventou a fotocopiadora (primeira crise do modelo editorial científico). Desde este fatídico dia, são principalmente as universidades e centros de pesquisa que, através de suas assinaturas sustentam as revistas com duas limitações fundamentais, a econômica e a e espacial.

Mas chegou a fatal Internet e com ela vieram novos modelos que fariam com que nada voltasse a ser igual. Em primeiro lugar, se incorporou o uso do correio eletrônico, acelerando e diminuindo os custos do processo de envio e comunicação com os autores. E a comunidade percebeu que isso era bom. Posteriormente, as revistas deram um salto integral para o formato digital e, pouco a pouco, o modelo eletrônico começou a complicar-se e ficar mais caro, assim como a exigir conhecimentos cada vez mais avançados. Neste contexto surge um movimento global que, sem resolver a principal questão dos custos, o financiamento das revistas, reclama o Acesso Aberto às produções científicas, ou, em outras palavras, pedem na justiça que as revistas, em prol do avanço da humanidade, renunciem a sua principal fonte de arrecadação e divulguem abertamente os seus trabalhos através da Internet.

Os simpatizantes do “tudo o que é alheio deve ser gratuito” se esquecem que as coisas têm custos, podemos diminuir custos por conta do interesse acadêmico dos membros de staff científico de una revista (editores, revisores), mas é muito difícil convencer os profissionais da revista (editores, programadores etc.) a trabalharem gratuitamente, a não ser que essas funções sejam assumidas por acadêmicos. Neste contexto, surge um novo modelo de financiamento de revista, o de pagar para publicar, que alguns vendem como a solução para o financiamento de revistas e o Livre Acesso.

Admitindo que alguém deve assumir os custos de edição e que os autores são parte muito interessada (os pesquisadores são, por sua vez, leitores e avaliadores), se propõem que sejam os autores que, além de fornecer conteúdo para as revistas, alimentem o financiamento das mesmas, com fundos próprios ou de projetos. O autor agirá bem destinando em seus projetos uma quantidade de dinheiro para a publicação dos seus resultados. Ademais, pagar para publicar também pode ter suas vantagens. O sistema permite crescer de maneira exponencial, o que significa que as revistas adéquam suas energias e as necessidades reais, permitindo que cresçam sem acumular fadiga ou, em outras palavras, uma revista pode editar e publicar o número de artigos que queira sem se limitar a um número fixo, pois tem um pressuposto variável que vai se ajustando às suas necessidades, visto que esta é variável em relação ao número de artigo aceitos. Igualmente, aceleram-se os processos avaliativos e de edição, pois pagar para publicar garante a profissionalização dos serviços.

Sob este novo modelo surgem umas poucas revistas sérias, respaldadas por instituições de prestígio como a Public Library of Science (familia PLOS). Igualmente, muitas revistas começam a incorporar uma opção para “liberar” o acesso aos artigos mediante o pagamento do autor, ou seja, as revisas renunciam a cobrar pelo acesso a um artículo porque o autor pagou previamente por ele, buscando uma maior divulgação. Não obstante, este número de revistas é quase anedótico se o compararmos quantitativamente a quantidade de revistas fraudulentas (Predator) que, aproveitando deste modelo (umas 17.000), cobram por processos de avaliação inexistentes. Portanto, publicar em revistas que cobram para publicar é uma opção com muitos riscos, a não ser que contemos com certo conhecimento da área.

Também há que se evidenciar que revistas tradicionais, que foram conduzidas a seguir o modelo de Livre Acesso, estão pedindo a seus autores que colaborem com os custos de edição. Estas revistas são opções seguras, distantes das do tipo Predator, posto que durante anos têm demostrado não possuir interesses econômicos e é a situação atual e o incremento dos gastos de edição constantes (a cada ano se cria uma opção de pagamento que melhora as características da web da revista) o que as levou a solicitar o auxílio dos autores para pagar parte do processo, revistas da qualidade de Prisma Social, Revista Latina de Comunicación Social ou Icono 14. Normalmente, quantidades pequenas e bem justificadas.

Recapitulando e resumindo. 1. Existem revistas cujos custos de edição são pagos pelos autores, e este é um modelo lícito, não obstante, devido ao fenômeno massivo das revistas do tipo Predator, a maior parte das revistas que cobram para publicar são fraudulentas. 2. Pagar para publicar permite que os conteúdos sejam disponibilizados em acesso aberto, mas impede que pesquisadores sem recursos publiquem nestas revistas a não ser que sejam “financiados” pelas mesmas (Plos One tem uma política de ajuda de custo). 3. As melhores revistas científicas não estão em Acesso Aberto e nem cobram de seus autores, isso de pagar para publicar é uma prática pouco comum nas revistas de elite, que está expandindo nas revistas medíocres e que é, em sua maioria, praticada por revistas fraudulentas.

 

 

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Sobre Lilian Ribeiro

Lilian Vieira da Rocha Ribeiro (Universidade de Huelva/Espanha) Doutora em Comunicação (Educomunicação & Media literacy); Mestra em Linguística Aplicada (Univ. de Brasília-Brasil); Licenciada em Letras (Faculdade Castelo Branco); Coordenadora da equipe de tradução espanhol-português da Escola de Autores da Revista Comunicar.
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