A escabrosa questão da autocitação

Raidell Avello Martínez – tradução: Julieti-Sussi Oliveira

 autocitaFazer referência a artigos da literatura para fundamentar um relatório de pesquisa para a publicação em uma revista é uma prática necessária e comum. A inclusão de referências, adequadas e oportunas, permitem ao autor situar o trabalho que apresenta no estado da arte do conhecimento no tema pesquisado. Junto com estas referências necessárias também está a autocitação, que são aquelas referências que o autor ou autores fazem ao seu próprio trabalho.

Existem diversos posicionamentos em relação ao tema, por um lado estão os que pensam que é bastante inconveniente fazer referências a si mesmos, justificando que isso é uma autopromoção depreciável dos próprios trabalhos. Por outro lado, alguns acreditam que não é oportuno fazer mais referência a outros autores que a si próprios, justificando que os seus trabalhos são os mais importantes da área. Entre os dois extremos estão aqueles que consideram que pode existir um equilíbrio. É verdade que a referência de um trabalho é um reconhecimento de valor científico (algumas vezes negativo, mas mesmo assim válido) de um trabalho publicado, que forma as bases do novo trabalho que se apresenta, portanto a autocitação é o mesmo que autorreconhecer o valor do nosso trabalho, coisa que outros deveriam fazer.

Em algumas ocasiões a autocitação é necessária, por exemplo: os trabalhos publicados anteriormente, pelo autor (principalmente quando o autor individualmente ou o grupo de pesquisa em que participa leva muitos anos pesquisando e publicando em uma área), são realmente importantes na área de conhecimento do autor e facilitam parte das bases teóricas ou práticas do novo trabalho; ou os trabalhos formam parte de uma pesquisa que está sendo publicada por etapas.

Nesse sentido existem aspectos que são criticados pela comunidade científica, entre eles quando a proporção da autocitação é alta em respeito à quantidade de referências. Não existe uma porcentagem definida, o que sim existem, são algumas indicações nas normativas de cada revista, como no caso de Comunicar, que expõe: “deve-se limitar e controlar a saturação de autocitação tanto do autor como desta  revista…”  Sem intenção de estabelecer um número, na minha opinião a autocitação não deve ocupar mais de 5% ou 15% do total das referências do trabalho. Outro aspecto são as autocitações injustificadas, ou seja, quando se fazem referências a trabalhos anteriores que tem pouco ou nenhuma relação com o que se propõe no texto, ou até pode ter alguma relação, mas a referência é desnecessária deixando em evidência a tentativa do autor de autopromover o seu trabalho e conseguir as cada vez mais desejadas referências e consequentemente, prestígio acadêmico.

Algumas das instituições dedicadas ao estudo e análise de impacto das publicações tem planejado formas de descontar a autocitação com o objetivo de analisar de modo mais claro e objetivo o impacto de um artigo.

A autocitação também tem efeitos no que diz respeito às revistas, neste caso são as citações que recebem os artigos de uma revista pelos seus próprios artigos. Neste caso,  também se aplicam os comentários anteriores. Na realidade, é um dos indicadores que as principais bases de dados calculam como parte das métricas que geram as referências. Pode-se mencionar como exemplo o serviço Journal Scholar Metrics que oferece Infoec3 a partir dos dados do Google Scholar, assim como as principais bases: Journal Citation Report (JCR) de Web of Science y Scopus, entre outras. Estas bases de dados costumam penalizar os excessos de autocitação e até mesmo retirar as revistas dos seus índices.

No caso da revista Comunicar em Journal Scholar Metrics (figura 1) se estima que 94% das referências recebidas são externas, somente 51 das 1022 referências contabilizadas são consideradas autocitação.

Autocitas2

A mesma situação se registra com o serviço de Scimago Journal & Country Rank, no qual o comportamento com respeito à porcentagem de autocitação e o total de referências são semelhantes.

Autocitas3

Para resumir, os autores devem avaliar com muita prudência a necessidade de fazer referência a um trabalho anterior, como é normal, com outros autores, e incluso está obrigado a, em caso de autocitação, criticar os resultados com o mesmo rigor que critica o trabalho de outros autores.

Por sua vez, os editores das revistas científicas devem prestar atenção a este assunto, controlando, com a ajuda dos revisores, para que não exista um uso excessivo de autocitação, tanto em relação a autor quanto em relação a revistas e que estas estejam devidamente justificadas. Em qualquer caso, convém não esquecer que, o que normalmente favorece a que um artigo seja aceitado para uma publicação e que depois seja citado é o seu rigor científico-metodológico e a relevância de seus resultados e conclusões.

Fonte da primeira imagem: “www.insidehighered.com/sites/default/server_files/styles/medium/public/media/iStock_000007032716_Large.jpg?itok=1YqQjDx0 “

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Sobre Lilian Ribeiro

Lilian Vieira da Rocha Ribeiro (Universidade de Huelva/Espanha) Doutoranda em Comunicação; Mestra em Linguística Aplicada (Univ. de Brasília-Brasil); Licenciada em Letras; Coordenadora do blog da Coedição em português da Revista Comunicar e da equipe de tradução espanhol-português da Escola de Autores.
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